quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Reflexão sobre formação docente




Tenho me perguntado frequentemente por que achamos natural que um curso de formação de bacharéis, psicólogos, engenheiros etc. dure entre quatro e cinco anos e que a formação de professores se realize em apenas três.
Quando falamos na valorização dos professores, imediatamente, pensamos em salários mais dignos. Obviamente isso se faz necessário e urgente, mas não é a única questão a ser pensada.
A formação dos docentes em três anos já suscita a ideia de que nossa profissão é mais rasa do que outras. E uma, das tantas consequências, são os salários oferecidos pelo mercado.
Basta dar uma pequena olhada nos editais dos concursos públicos, em todos os níveis.
Há alguns dias, para o cargo de Analista em Educação, era solicitado qualquer diploma de nível superior. Me chamem de arrogante, mas me recuso a discutir educação com alguém que não seja formado na área docente. Por acaso algum médico, enfermeiro, advogado, discutiria com um professor as questões relativas às suas profissões? Por que o educador deve se submeter a esse tipo de situação?
No mesmo edital, de todos os salários de nível universitário, o mais baixo era o de Analista em Educação. Seria mera coincidência?
A desvalorização dos profissionais da educação já se inicia na proposta de formação do educador.
As condições de trabalho, seja em nível básico, médio ou superior as condições de não são diferentes.
Docentes universitários recebendo por hora aula, enchendo-se de trabalho em sala de aula e deixando o tempo de estudo esvair-se entre os dedos.
Professores dos ensinos básico e médio correndo de escola para escola, tendo que trabalhar em sala de aula de manhã, de tarde e de noite para conseguir manter-se minimamente.
Futuros docentes sendo formados em cursos semestrais, de três anos, onde aulas expositivas campeiam, provas e trabalhos são os únicos motivos pelos quais se estuda e a pesquisa passa muito longe da universidade, bem como o entrosamento da instituição com a comunidade.
Somos/ seremos docentes de papel, propagando uma educação cada vez mais deficitária, onde os cidadãos também são apenas de papel.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O cansaço nosso de cada dia




Estava lendo uma matéria sobre o ambiente de trabalho negativo e os danos que podem ser causados por ele.
Segundo os especialistas, esse ambiente pode ser caracterizado por um lugar onde as pessoas não trabalham por um objetivo comum, além de terem como pauta principal de seus horários de intervalo, a vida do outro, seja em âmbito profissional ou pessoal.
Trabalhar em um ambiente assim é extremamente desgastante por vários pontos de vista.
Quem trabalha, além do salário no final do mês, se sente bem quando percebe haver frutos de seu empenho, ou seja, quando conseguiu atingir metas, objetivos etc.
Para tanto, o local de trabalho não necessita ser um ambiente opressor. Ao contrário, pesquisadores da área de Recursos Humanos têm apontado que a descontração aumenta a produtividade do trabalhador. Assim, a famosa produtividade não precisa ser afetada em prol de boas relações humanas.
Mas o que é necessário para que um profissional se sinta motivado a continuar seu trabalho sem se importar em disseminar maledicências?
Quando a empresa tem um projeto, com metas e objetivos definidos, um plano de carreira adequado, um quadro definido de cargos/ funções e métodos de comunicação eficazes, a promoção de um ambiente positivo pode ser bastante facilitada. Não é a única medida, obviamente, mas ajuda bastante.
A consequência da promoção desse tipo de ambiente, imediatamente, se reflete sobre o funcionário.
A coisa mais desgastante de um ambiente de trabalho, em muitos casos, não é o trabalho em si, mas a maneira como as relações humanas se estabelecem e seus reflexos sobre o dia-a-dia laboral.
O desgaste físico ou intelectual exigido pelo exercício das funções de um profissional podem ser recompensados quando o fruto de seu esforço é percebido, porém o desgaste emocional de um ambiente negativo é contraproducente para a empresa e insalubre para o indivíduo que nele convive.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

A Tenda dos Milagres


O primeiro contato que tive com a literatura chamada adulta aconteceu por volta de meus 13 anos, quando cursava a sétima série. A professora de Língua Portuguesa nos solicitou a leitura de “Música ao Longe”, cujo autor é Erico Veríssimo. Percebi então, que realmente sentia prazer com aquela atividade e nunca mais parei de ler. As imagens formadas em minha cabeça através das palavras bem arranjadas no texto, o enredo, cada um dos personagens, me faziam sair, por alguns momentos, do lugar onde vivia. Mesmo sem nunca ter ido ao Rio Grande do Sul, tive a impressão de conhecê–lo.
Mas a literatura me ganhou definitivamente quando, dois anos depois, fui obrigada a ler um tal de “Vidas Secas”. O nome do autor era conhecidíssimo: Graciliano Ramos, mas o texto, que horror! Isso foi o que pensei até conhecer Baleia, uma cachorra quase humana. Mais humana do que os entes daquela família? Talvez. Através de Baleia comecei a querer entender o que o escritor desejava nos dizer.
Acabei adorando o livro e hoje, Graciliano Ramos é um de meus autores favoritos.
Depois dessas obras fiquei pensando que nada mais poderia me surpreender. Jovem e limitada, não imaginava o que a literatura brasileira tinha de bom, mas nem por isso deixei de ler, embora essas duas obras tenham se tornado meus referenciais.
Caminhando pelo mundo das obras clássicas cheguei em “O Cortiço” e encontrei mais um texto inesquecível. O local da trama lembrava o próprio lugar onde eu morava. Percebi que, da época na qual a história se desenrola até àqueles dias, pouco havia mudado para a população pobre.
Continuei lendo e experienciando outros autores, mas ainda não chegara a vez de Jorge Amado.
Dia desses, aos 35 anos, entrei em um sebo e vi expostos vários de seus títulos, um deles me lembrou a infância.
“A Tenda dos Milagres” me fez voltar a meados da década de 80, quando assistia com minha avó materna à minissérie homônima, na qual Nelson Xavier vivia o apaixonante Pedro Arcanjo. Não tive dúvidas, levei o volume para casa e o li em 4 ou 5 dias, ao término não sabia se estava mais feliz por ter sanado minha dívida comigo mesma, no que diz respeito a Jorge Amado, ou pelo orgulho de ter, em minha língua, uma obra como aquela.
“A Tenda dos Milagres” conta, praticamente um século, de nossa história de maneira sensível, divertida e sem deixar de ser séria, enfocando assuntos importantíssimos como o preconceito racial (re)produzido e ratificado pelos sistemas de educação, comunicação, saúde e segurança pública.
O autor trabalha dentro de um cenário e tempo bem definidos, apoiado em personagens humanamente sólidos, ou seja, sem o estereótipo dos mocinhos/ galãs e dos bandidos/ monstros. Pedro Arcanjo consegue ser sedutor mesmo no auge de seus 70 anos, pela maneira libertária e coerente como vive/pensa, já os grandes acadêmicos racistas são decrépitos ainda quando jovens e saudáveis.
Leiam “A Tenda dos Milagres” porque somos todos um pouco Pedro Arcanjo.


sábado, 25 de julho de 2015

Gerindo meu tempo - minhas férias - parte 2


Hoje cumpri mais uma parte das tarefas estabelecidas para essas férias.
Há algum tempo percebi o quanto de objetos inúteis andava acumulando e naquele planejamento de férias, incluí, além das leituras rotineiras, a limpeza e organização de algumas coisas: gavetas, prateleiras, bijus, bolsas, livros e uma pequena “dispensa” existente em meu quarto.
O primeiro final de semana foi destinado à limpeza desta dispensa. Muita coisa foi jogada fora e todas as roupas destinadas a doação, devidamente ensacadas, foram deixadas na igreja de São Judas Tadeu, no Marapé, onde o padre Chico mantém um trabalho de assistência à comunidade, reconhecido por todos os munícipes.
Hoje foi a vez de meus colares e bolsas.
Joguei fora tudo o que não estava muito bom e, principalmente, aquilo que não usava há mais de um ano _ aprendi isso com uma amiga que hoje está morando na Itália e de quem recebi ensinamentos preciosos.
Estou me sentindo mais leve. Tenho menos coisas e apenas as necessárias. Além disso, me sinto cada vez mais feliz por estar conseguindo cumprir as coisas que me propus a fazer.
A divisão e aproveitamento do meu tempo foram cruciais para a realização de cada tarefa.

O próximo passo é conseguir manter essa rotina.

Podem ser humanizadas as empresas?


Esses dias fui com a minha sobrinha ao cinema e depois do filme resolvemos ir a uma dessas redes de fast food lanchar.
Por se tratar de uma das poucas coisas que fica aberta no Gonzaga após às 22h00, a loja estava relativamente cheia.
Já havíamos feito nosso pedido e estávamos lanchando próximo ao balcão de atendimento quando um fato grotesco aconteceu.
Essa empresa tem, em seus caixas, um lugar onde os clientes são convidados a depositar seus trocos em moeda, favorecendo alguma causa humanitária que eu não sei qual é. Segundo minha sobrinha, o dinheiro é destinado a ajudar crianças com câncer. A causa é nobre e algumas moedas não farão falta aos consumidores do local.
O que me surpreendeu é a maneira como a coisa é tratada.
Enquanto lanchávamos, uma das funcionárias veio do fundo da loja e, gritando com as moças dos caixas, informou que era inadmissível terem recolhido apenas um real de donativos o dia todo. Ainda de forma grosseira, disse que no dia seguinte os pedidos das funcionárias pelos trocos em moedas deveriam ser mais ostensivos. Uma das funcionárias retrucou e ouviu uma resposta ainda mais grosseira.
Vendo aquilo, me senti humilhada pelas trabalhadoras que ali estavam. Percebi que as outras pessoas também não concordavam com aquilo que haviam acabado de presenciar.
Terminei meu lanche e me reportei ao gerente sobre o acontecido. O rapaz, extremamente solícito e educado, disse – me que já estava tomando providências com relação ao fato.
Voltei para casa com os miolos meio borbulhantes, sem saber o que realmente me incomodava e, pensando friamente, percebi que o paradoxo da situação era o que me deixava mais passada.
Para construir uma imagem de empresa humanizada, a tal rede de sanduíches solicita a seus clientes contribuições a uma determinada causa, mas ao mesmo tempo, faz com que seus funcionários pressionem seus subordinados, de forma humilhante, para a recolha dessa verba.
Fiquei me perguntando se talvez, não fosse mais eficaz começar a humanização de dentro para fora e me peguei, respondendo a mim mesma, que esse tipo de atitude não gera lucro.