O
primeiro contato que tive com a literatura chamada adulta aconteceu por volta
de meus 13 anos, quando cursava a sétima série. A professora de Língua
Portuguesa nos solicitou a leitura de “Música ao Longe”, cujo autor é Erico
Veríssimo. Percebi então, que realmente sentia prazer com aquela atividade e
nunca mais parei de ler. As imagens formadas em minha cabeça através das
palavras bem arranjadas no texto, o enredo, cada um dos personagens, me faziam
sair, por alguns momentos, do lugar onde vivia. Mesmo sem nunca ter ido ao Rio
Grande do Sul, tive a impressão de conhecê–lo.
Mas
a literatura me ganhou definitivamente quando, dois anos depois, fui obrigada a
ler um tal de “Vidas Secas”. O nome do autor era conhecidíssimo: Graciliano
Ramos, mas o texto, que horror! Isso foi o que pensei até conhecer Baleia, uma
cachorra quase humana. Mais humana do que os entes daquela família? Talvez.
Através de Baleia comecei a querer entender o que o escritor desejava nos
dizer.
Acabei
adorando o livro e hoje, Graciliano Ramos é um de meus autores favoritos.
Depois
dessas obras fiquei pensando que nada mais poderia me surpreender. Jovem e
limitada, não imaginava o que a literatura brasileira tinha de bom, mas nem por
isso deixei de ler, embora essas duas obras tenham se tornado meus
referenciais.
Caminhando
pelo mundo das obras clássicas cheguei em “O Cortiço” e encontrei mais um texto
inesquecível. O local da trama lembrava o próprio lugar onde eu morava. Percebi
que, da época na qual a história se desenrola até àqueles dias, pouco havia
mudado para a população pobre.
Continuei
lendo e experienciando outros autores, mas ainda não chegara a vez de Jorge
Amado.
Dia
desses, aos 35 anos, entrei em um sebo e vi expostos vários de seus títulos, um
deles me lembrou a infância.
“A Tenda
dos Milagres” me fez voltar a meados da década de 80, quando assistia com minha
avó materna à minissérie homônima, na qual Nelson Xavier vivia o apaixonante
Pedro Arcanjo. Não tive dúvidas, levei o volume para casa e o li em 4 ou 5
dias, ao término não sabia se estava mais feliz por ter sanado minha dívida
comigo mesma, no que diz respeito a Jorge Amado, ou pelo orgulho de ter, em
minha língua, uma obra como aquela.
“A
Tenda dos Milagres” conta, praticamente um século, de nossa história de maneira
sensível, divertida e sem deixar de ser séria, enfocando assuntos
importantíssimos como o preconceito racial (re)produzido e ratificado pelos
sistemas de educação, comunicação, saúde e segurança pública.
O
autor trabalha dentro de um cenário e tempo bem definidos, apoiado em
personagens humanamente sólidos, ou seja, sem o estereótipo dos mocinhos/ galãs
e dos bandidos/ monstros. Pedro Arcanjo consegue ser sedutor mesmo no auge de
seus 70 anos, pela maneira libertária e coerente como vive/pensa, já os grandes
acadêmicos racistas são decrépitos ainda quando jovens e saudáveis.
Leiam
“A Tenda dos Milagres” porque somos todos um pouco Pedro Arcanjo.

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