sexta-feira, 24 de julho de 2015

Sobre ser gorda



Esses dias estava zapeando os canais de TV e parei para ver uma reportagem sobre os problemas enfrentados por pessoas gordas.
Algumas mulheres estavam sendo entrevistadas e apontavam o vestir como um problema sério. Não falavam apenas da falta de roupas para tamanhos grandes, mas também dos olhares tortos de vendedores (as) de lojas e da qualidade de estampas e modelagens.
Um dos entrevistadores perguntou se era apenas esse o problema.
À primeira vista, realmente, pode parecer bastante fútil preocupar-se com isso, mas não é.
Todos nós necessitamos nos vestir. Ter roupas pode estar associado ao luxo, mas antes de ser luxo, é necessidade. Atualmente, o vestir também está ligado a outras questões como a autoestima e a vida profissional.
Chegue a uma entrevista de emprego vestida (o) inadequadamente e veja o que acontece.
Vista-se sempre com roupas que não te fazem sentir bem e experimente os resultados disso sobre sua autoestima.
Infelizmente, associa-se a forma de vestir à competência do indivíduo, aos cuidados que destina a si, entre outros itens. Esse conjunto de ideias influencia na maneira como somos vistos e tratados por terceiros e recai sobre a pessoa que está sendo “julgada”.
Mas o entrevistador tem seu lado de razão ao questionar se é apenas esse o problema, porque não é. Além desse, outros problemas sérios poderiam ter sido abordados como o mito da falta de saúde, a fetichização/objetificação da mulher gorda, o mito da (o) gorda (o) bem humorada e a semântica (acho que é assim que se diz).
O mito da falta de saúde – É comum pessoas se sentirem no direito de dizer que o (a) gordo (a) deveria emagrecer por causa da saúde, afinal peso em excesso pode causar diabetes, aumentar o colesterol, o risco de câncer e outras coisas mais. Creio que sim, a obesidade mórbida, assim como a anorexia, pode trazer diversas complicações a saúde, afinal são casos extremos, sinais de total desequilíbrio no organismo, então é óbvio que causam problemas e levem até a morte, porém, existe uma diferença entre ser gordo (a) e estar com obesidade mórbida, assim como existe diferença entre ser magro (a) e anoréxico (a).
A fetichização/ objetificação da mulher gorda – “Quem gosta de osso é cachorro, homem gosta de ter onde pegar”; “Gordinhas fazem sexo melhor”; “Gordinhas são mais carinhosas na cama”. Essas são frases comuns de serem ditas e/ou escritas por homens. Geralmente, essas frases são vistas como elogios às mulheres gordas, mas não passam de uma manifestação do imaginário machista que se formou em torno do corpo feminino. Uma mulher, seja ela gorda ou magra, não nasceu para servir aos desejos masculinos, portanto, elogiar uma mulher por seu desempenho sexual, estereotipando esse comportamento em um tipo físico, não é um elogio e sim um equívoco que se presta a reforçar a ideia de que mulheres não passam de objetos sexuais.
O mito da (o) gorda (o) bem humorada (o) – Tenho ouvido, desde criança, humoristas dizerem que não são bem humorados o tempo todo por serem humoristas, assim é também o caso do (a) gordo (a). Virou quase uma obrigação o sujeito ser bem humorado se estiver acima do peso, como se devesse compensar a sociedade com algo agradável em contrapeso ao que apresenta de desagradável, sua imagem. Pensar desta maneira é encerrar as pessoas em uma caixa, pelo tipo físico que apresentam. Como se houvesse uma mulher padrão, um homem padrão, um (a) gordo (a) padrão. O ser humano é um espectro muito amplo para ser limitado a estereótipos, portanto, nem todos (as) os (as) gordos (as) são bem humorados e nem têm obrigação de ser.
A maneira de se dizer as coisas – “gordinha (o)”, “forte”, “fofinha (o)”.  Não, o (a) gordo (a) não é nada disso, é apenas gordo (a). E qual o problema de ser e dizer que é?
Ser gordo (a), não é ser cidadão (ã) de segunda classe. Ser gordo (a) não é vergonha, então qual é o problema em utilizar essa palavra para se definir fisicamente?
Nosso imaginário é formado de várias formas, por diversas vias e a maneira como utilizamos as palavras é umas delas, portanto, é importante que ao nos referirmos a alguém com sobrepeso haja adequação nos termos. Gordinho (a), forte, fofinho (a), só manifesta o desconforto daquele que está falando/ escrevendo e seu receio de ofender seu interlocutor, consequentemente, reforça a ideia de que a palavra “gordo (a)” é ofensiva, é xingamento. Ser gordo (a) é uma condição física, que pode ser mudada ou não, mas que não pode ser vista como uma ofensa.
Existem ainda outras expressões que mostram nosso preconceito inconsciente (aprendi essa nas aulas sobre História da África) como: “corpo perfeito” _ quem imagina um (a) gordo(a) quando ouve alguém dizendo isso? Provavelmente ninguém ou muito poucas pessoas.
Por quê?
Porque fomos ensinados que corpo perfeito é o sarado, o magro ou, no mínimo, aquele que está dentro dos padrões aceitáveis de beleza.
Em minha opinião tudo isso não passa de formas de controle dos seres humanos. Enquanto perdemos tempo em busca do “corpo perfeito”, dentro de academias por horas e horas, esquecemos de outras coisas, às vezes até de nós mesmos. Gastamos nosso dinheiro em suplementos alimentares desnecessários, cremes de fórmulas mentirosas, shakes inúteis e jamais nos satisfazemos com o que temos, jamais sentimos o gostinho de sermos felizes
Não estou fazendo apologia do relaxo, mas da opção. Sejamos o que queremos ser e deixemos que os outros decidam o que querem ser, sendo respeitados pelo que são.

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